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O Despertar da Primavera

Muito me espanta quanta cultura há para conhecermos! Quanta leitura, arte, teatro, música etc estão em tímido esconderijo ou bem abaixo de nossos narizes. 

Foi assim com a leitura de O Despertar da Primavera, do alemão Frank Wedekind; obra escrita em 1891. Tomei conhecimento da obra através da coluna (R7) O Provocador, do jornalista Marco Antônio Araújo – mas escrevo sobre isso depois. 

   

A obra – uma tragédia infantil 

Escrita em forma de peça teatral, O Despertar da Primavera trata do fim da inocência na juventude, “fuçando” em assuntos como a descoberta do sexo, gravidez, homossexualidade, suicídio e repressão por parte das instituições. 

Imagine, final do século XVII, uma peça de teatro com tamanha “rebeldia” para os moldes clássicos da época. A obra abriga personagens como professores severos, pais que não sabem falar sobre sexo com os filhos e aventureiros. 

O jovem Melchior faz o papel do “questionador”, personalidade totalmente censurada pelas instituições repressoras. Diferente de alguns de seus amigos, Melchior tem conhecimento sobre “pênis” e “vagina” (para ser mais claro), porém a sociedade da época tem um compromisso em manter a velha história da “cegonha e da chaminé”. 

Wendla, uma menina de apenas 14 anos, questiona-se sobre como chegamos ao mundo. Suas saias, que ficava mais curta à medida que ela crescia, (in)conscientemente atiça o desejo de Melchior. Ficou muito marcado em minha mente, esse ato do livro – observe: 

WENDLA – Em mim nunca ninguém bateu. Nem uma única vez. Eu nem imagino bem o que é isso, de levar uma sova. Eu já bati em mim mesma, para saber como é que as pessoas se sentem. Deve ser horrível. 

MELCHIOR – Eu não acredito que uma criança se corrija assim. 

WENDLA – Assim como? 

MELCHIOR – Com surras. 

WENDLA – Dessa vara, por exemplo. 

MELCHIOR – Essa tira sangue. 

WENDLA – Melchior, você é capaz de me bater com ela? 

MELCHIOR – Bater em você? 

WENDLA – Isso. Em mim. Agora. 

MELCHIOR – Wendla, o que foi que deu em você? 

WENDLA – Por que não? 

MELCHIOR – Chega! Eu não vou bater em você. 

WENDLA – Eu deixo. 

MELCHIOR – Nunca. 

WENDLA – E se eu implorasse, Melchior? 

MELCHIOR – Você está doida? 

WENDLA – Nunca me bateram, em toda a minha vida. 

MELCHIOR – Se você é capaz de implorar uma coisa dessas… 

WENDLA – Por favor, Melchior. Por favor. 

MELCHIOR – Por favor? Eu vou te ensinar como se pede “Por favor”! 

(bate nela com a vara).  

WENDLA – Não sinto nada. 

MELCHIOR –  Também, todas essas saias. 

WENDLA (subindo as saias) – Então, me bata nas pernas. (bate com mais força). –

Isso não é bater, Melchior. Me bata de verdade! 

MELCHIOR – Bruxa! De verdade? Então espere. Eu vou te arrancar o demônio do corpo. 

(joga fora a vara e começa a dar socos em Wendla. Ela grita. Ele a ataca com mais violência e chora furiosamente. Levanta-se e, de repente, foge para o meio da mata, soluçando). 

   

Forte, não é? Pois bem, mas não julgo a peça como masoquismo sem sentido. Muito pelo contrário, ela objetiva o questionamento, a desilusão, o enfrentamento e várias outras coisas. Não é hedonista. Muito pelo contrário. É trágica e conscientizadora, com desfecho dialético, na minha opinião.

Que mais posso dizer dessa obra? Fica a dica da leitura. O que eu posso dizer é que eu perdi um grande musical, acho eu. 

Se quiser baixar o livro em arquivo PDF, aqui está: http://ciaateliedasartes.com.br/TEXTOS%20TEATRAIS/O%20despertar%20da%20primavera%20-%20Frank%20Wedekind.pdf 

 

O musical 

Nos Estados Unidos, a obra foi adaptada para musical. Intitulada Spring Awakening, recebeu elogios muito bem colocados da crítica. A partir desse musical, os diretores Charles Möeller e Cláudio Botelho fizeram uma versão brasileira que foi apresentada (entenda o verbo no passado, mesmo!) em curta temporada. 

O site do musical: http://www.despertarprimavera.com.br/ 

Confesso que ainda não vi os vídeos que estão no site, mas com (quase) certeza vale a pena conferir. Também é possível fazer download das músicas. 

 

A polêmica dos seios nus 

Como disse no início do post, conheci a obra e o musical através da coluna do (polêmico) jornalista Marco Antônio Araujo, que não poupa usar a primeira pessoa em seus textos. 

A polêmica dos seios nus. Malu Rodrigues, 16 anos, foi devidamente emancipada pelos pais a fim de participar do musical. Durante a peça, sua personagem aparece com os seios para fora da roupa. 

Atitude artísticamente defensável, Marco Antônio critica e implica totalmente com a atitude da Vara da Infância e da Juventude de proibir a atriz de fazê-lo e de colocar duas psicólogas para acompanhá-la. Pois bem, concordo – e muito – com Marco Antônio que a “Justiça” (se é que podemos chamar assim) tem situações muito mais urgentes para resolver como o montante de crianças nas ruas usando drogas, o sistema de saúde pediátrico etc. 

Mas, na minha pequena (sagrada e profana) razão e emoção, assim como a obra, antológica, porém com emissor e receptor, dialogo comigo mesmo e não julgo saudável uma atriz de apenas 16 anos ficar com os seios à mostra. Concordo que há assuntos muito mais urgentes – e que esses sim sejam resolvidos!

Mas essa discussão fica reduzida aqui…

Porém, caso queira discutir sobre, fico à disposição através dos comentários ou do meu e-mail: misaeljornalista@gmail.com

O texto do Marco Antônio: http://noticias.r7.com/blogs/o-provocador/2010/07/12/o-rei-esta-nu-mas-nao-pode-mostrar-os-seios/

E você, o que tem lido ultimamente?

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4 Responses to “O Despertar da Primavera”


  1. 20 de agosto de 2010 às 7:56 pm

    Parece ser muito interessante mesmo o livro, baixei ele aqui e vou ler! Valeu pela dica Misa 😀 Faz tempo que não leio um bom livro! haha
    Beijão.

  2. 2 Fabi
    21 de agosto de 2010 às 12:12 am

    Tenho lido o Despertar da Primavera..indicado por vc mesmo.
    E estou gostando muito!
    Instigante leitura! Safada inocencia dos adolescentes redigida no ano de 1800 e bolinha! ahahaha
    =**

  3. 3 Nathalia
    25 de agosto de 2010 às 12:12 pm

    Mais uma vez venho aqui prestigiar o seu texto, que a cada dia tem melhorado mais e mais.
    E mais uma vez você me despertou a curiosidade de ler, ouvir e assistir algo!

    Parabéns!

    Beijos

  4. 25 de agosto de 2010 às 12:15 pm

    Obg, Naty. Espero que leia. Beijao.


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