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A Origem (Viagem ao texto)

No último fim de semana, estive no ABC Paulista com meu pai. Tudo muito corrido, nem em festa fui, mas valeu muito a pena ter ido ao cinema, mesmo depois de perder o ônibus e ter que pegar um táxi para ir embora – nunca havia andado de táxi.

Fui assistir ao filme Inception (“abrasileiremos” para ‘A Origem’), do grande diretor Christopher Nolan, responsável por dirigir Batman Begins (2005) e The Dark Night, ou seja, Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008). O resultado? Não poderia ser melhor (para alguns poderia)! É o tipo de filme que faz a gente entrar no cinema, não piscar, sair se questionando e querendo falar sobre o final: “Foi isso mesmo?”.

Para quem ainda não sabe sobre o que se trata o filme, elaborei uma pequena resenha (sem contar nada – por enquanto).

Cobb (Leonardo DiCaprio) é um sagaz ladrão, ímpar na arte de roubar segredos valiosos através dos sonhos. Quando a mente está vunerável, Cobb e sua equipe conseguem entrar nas profundezas do sonho e são capazes de construir os mais diversos cenários na mente humana e roubar ideias. Depois de perder tudo – as coisas mais importantes de sua vida – Cobb tem sua chance de redenção: ao invés de roubar, tem que plantar uma ideia! Se ele e sua equipe conseguirem, realizarão o crime perfeito. Porém, há um inimigo que apenas Cobb pode enfrentar!

Não, não estamos falando de X Men ou algo sobre super poderes. É ficção científica das boas! Imagine que, através de uma máquina e com alguns sedativos, é possível entrar em rede no sonho de uma pessoa! É possível projetar prédios, casas, ruas, avenidas etc. As pessoas são projetadas através do subconsciente.

A partir de agora, caso não queira mais saber sobre o filme, é melhor fazer outra coisa: pegue um livro e vá ler! Depois de ver o longa metragem, volte aqui para discutirmos mais! Se bem que, o filme é tão complexo, que eu duvido que você entenda algo que eu escrevi…

Sonho dentro do sonho

Cinco minutos (na vida real) equivalem à uma hora no sonho. Cobb e a equipe entram para o ramo da espionagem industrial, mas Cobb comete vários erros durante sua vida ao estudar (entenda estudar a fundo) essa arte.

É possível criar um sonho dentro de um sonho? Sim! Dessa forma, o tempo também se modifica! É possível criar outro sonho, que já está dentro de um sonho, que está dentro de um sonho? Sim! São três camadas de sonho! O perigo está aí – perder a noção da realidade e do sonho e ficar preso no que chama-se “limbo” (um dia no mundo real torna-se cinquenta anos no sonho).

Para não perder a noção entre a realidade e o sonho, cada personagem tem um totem. Cobb, por exemplo, tem um peão. Se ele rodar o peão e ele continuar girando, significa que ele está no sonho ainda. Caso contrário, ele está na vida real. O totem deve ser particular de cada um, visto que cada um precisa saber diferenciar o que é e o que não é real!

Peão de informações

O peão da confusão ficou girando dentro da minha mente que nem roda gigante desornada! Não é possível um filme reunir tanta informação de granva valia! Pois bem, é possível! Grande valia no sentido geral – diálogo, atuação, imagens, cenas, enredo, personagens, história. Tudo! Peraí, estamos falando de Nolan – cineasta de grande valia! Por sí só, o tema já é complexo e, junto da problemática do filme, torna-se mais complexo ainda! Prolixidade não falta!

A atuação da Ellen Page, para muitos críticos de cinema, foi um erro. Na minha opinião, ela não atuou mal, mas atuou da forma como a personagem era. Para mim, o erro está no desenvolvimento da personagem! Criaram uma Ariadne muito “abobalhada” e “imbecil”. Convenhamos que, se você é estudante de arquitetura e descobre que é possível entrar em um sonho (próprio ou de alguém) e projetar o layout de uma cidade inteira, do modo como quiser! Tu vai ficar abobalhado, faz sentido! Mas não estático! E foi isso que aconteceu – a atuação de Ellen Page parece ter sido ótima, mas a personagem criada pelos autores foi estática!

Direção de arte e efeitos visuais incríveis. Prédios desmoronando, cidade de cabeça para baixo, gravidade desordenada etc. E Leonardo DiCaprio finalmente está deixando de ser (apenas) o Jack que morrera outrora por um amor de cabelos ruivos chamado Rose – e com vários erros de continuidade (risos). Ele tem interpretado bem seus papéis de ação – como a própria Veja ressaltou (Veja – semana 15 de agosto).

Desfecho

A grande briga de A Origem tem sido o desfecho! Afinal, Cobb conseguiu sair do limbo a fim de realizar sua missão e voltar para a sua família?

O grande problema, a grande pugna de Cobb, foi quando Mal (sua esposa) e ele ficaram aprisionados na limbo. Foram cinquenta anos e Mal perdeu a noção da realidade e do sonho! Então, ele plantou uma ideia em sua mente para que se “suicidassem” no trilho do trem a fim de voltar para o mundo real. Pois bem, ao que tudo indica, voltaram e Mal continua ainda assim acreditando que está em um sonho e que precisa voltar para sua família e para seus filhos! Cria um plano para afastar Cobb de seus filhos (que para ela são ilusões) e pede que ele se suicide com ela. Ela pula pela janela e ele assiste à sua morte! Triste fim de Mal!

Infelizmente, Cobb foi o agente de sua morte. Sua intenção, com certeza, foi salvá-la, mas não foi o que ele conseguiu. No final, sua tentativa é outra! Ele enfrenta Mal no limbo e tem que resgatar seu amigo – dessa forma, ao invés de plantar uma ideia, ele prefere raciocionar um pensamento! (Se você chegou até esse ponto da leitura, tenho certeza que não deve estar entendendo nada. Sim, caro leitor, é complexo!)

Pois bem, no final, ele volta para casa. Roda o peão e vai ao encontro de seus filhos. O peão continua rodando, o que significa que aquilo não é a realidade, é um sonho!

Aí começa o âmbito de discussões. Algumas proposições:

– Antes da cena final, o peão começa a se desequilibrar (eu não vi isso);

– As roupas das crianças era diferente das roupas que eram mostradas nos sonhos (não reparei, confesso);

– Ele está vivendo em um sonho, ainda! (que pena para ele).

O que eu penso: se Cobb pode entrar em sonhos e projetar (com exceção da arquitetura), por que ele não conseguiria projetar, no sonho, que seu peão perdesse o equilibrio? Se ele projetasse isso em um sonho, acreditaria que estava na realidade (mesmo estando em um sonho). Foi o que pode ter acontecido no final.

O que eu quero acreditar é que ele conseguiu cumprir sua missão e voltar para sua família, mas a extensão de discussão é tão longa e subjetiva, que nunca vamos chegar ao desfecho x=y! Nunca, acredito eu!

A Origem talvez não seja uma obra prima do século XXI, mas é espetacular! Fazia muito tempo que eu não assistia um filme tão bom, interessante e de fazer-se questionar tanto! Vale a pena! Fica a dica!

Filosofia

Após assistir ao filme, minha cabeça tomou-se de pensamentos relacionados à Filosofia. Nas minhas últimas (entenda de Filosofia), o tema abordado foi: pensar versus sentir.

O filósofo grego Heráclito acreditava que tudo está em constante mudança! Por isso, para sentir algo, era necessário utilizar-se dos sentidos.  Um rio, por exemplo. Hoje, ele é assim. Amanhã, é de outro jeito. Por que? Porque tudo está em constante mudança! A água evaporou; choveu, sujeira caiu, sujeira saiu, animais morreram, animais nasceram. Tudo está em constante mudança!

Considera a natureza como um fluxo perpétuo – ninguém entra duas vezes no mesmo rio.

Os sentidos, para Heráclito, nos oferecem a imagem da estabilidade, diferente dos pensamentos, que alcançam a verdade como mudança contínua!

Relação – Heráclito e desfecho do filme: se tudo está em constante mudança e a visão apresenta o estático e o pensamento mostra o fluxo contínuo, Cobb pode muito bem ter permanecido no sonho ideal, ter criado um sonho primordial!

Essa minha opinião é semelhante a do crítico Rubens Ewald Filho, que utilizou-se do grande Descartes: “Penso, logo existo!”. Cobb deve ter criado a realidade ideal (no sonho) – basta ver as outras pessoas no aeroporto o olhando de forma estranha; o subconsciente estava incomodado.

Já o filósofo Permênides de Eléia acreditava que conhecer é alcançar o idêntico, o imutável. “Como pensar que é e não é ao mesmo tempo?” Mas, concordava com Heráclito em uma coisa: “perceber” e “pensar” são coisas diferentes!

– Percebemos (sentimos) mudanças que não tínhamos pensado;

– Pensamos identidades imutáveis

Então, isso significa que os sentidos estão em incessante mudança e o pensamento, as identidades, são estáveis.

Relação – Parmênides e desfecho do filme: como, então, é possível ter essa sensibilidade do que é e do que não é, ou seja, o totem bastaria para reconhecer se era realidade ou sonho?

Acredito que a “viagem filosófica” foi excessiva – só faltou eu pesquisar mais sobre Demócrito para relacionar ao desfecho. Mas, tenho certeza de que quem se interessar por Filosofia, e assistir ao filme, poderá relacionar todos esses filósofos e assuntos. Vale a pena!

Afinal, vivemos um sonho ou uma realidade?

Para finalizar, posto essa música de Martinho da Vila, que tem tudo a ver com o filme A Origem e com o post.

Sonho de um Sonho

Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados
Sonho meu
Eu sonhava que sonhava
Sonhei
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços
Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava
Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei

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5 Responses to “A Origem (Viagem ao texto)”


  1. 1 Nathalia
    18 de agosto de 2010 às 12:20 pm

    E tudo isso me deixou muito confusa! Como se as aulas de filosofia não fossem suficientes para me deixar assim!
    Vou assistir o filme, para tentar entender todas as suas comparações!

    Beijos

  2. 2 Juniores
    18 de agosto de 2010 às 3:39 pm

    Mano, confesso que não li o final porque me interessei em ver no cinema. fhasuhsa
    Quando será lançado aqui no fim do mundo, você sabe?
    Abrazz

  3. 3 fabi
    21 de dezembro de 2010 às 12:39 pm

    Misão…..li esse post seu, e não havia lido o desfecho, poi tinha a intenção de ver o filme. Pois bem, vi o filme, e amei! É exatamente o tipo de filme que me fascina. Confesso que ainda ecoam em minha mente falas…cenas..projeções do filme…e ainda tento entende-lo. As peças se encaixam no meu cérebro, mas não tenho o dom de manifesta-las.
    Se você gosta de filmes assim, fica aqui algumas dicas: Efeito Borboleta (com certeza já visto); Clube da Luta; Vanilla Sky. Veja também: Laranja Mecânica; Magnólia; Pulp Fiction; Adaptação; Jogos, trapaças e dois canos fumegantes; O Fabuloso Destino de Amélie Poulain; 21gramas; Déjà Vu……..entre outros e outros tantos que curto PACAS!!!! Beijo, meu caro!

    • 21 de dezembro de 2010 às 1:14 pm

      Fala Fabi, beleza?

      Poxa, que bom que gostou da sugesto! “A Origem” um filmo mesmo. Todos filmes que fuam na psich da gente, eu gosto!

      Desses que tu citou, eu assisti: Efeito borboleta (meu preferido, um dos); Clube da luta, Vanilla, Laranja, O Fabuloso Destino (eu tenho at original), Dej vu!

      isso ai. Parabns. Fico com suas dicas para uma prxima.

      Um beijao. Saudade =)

  4. 5 Karl
    13 de janeiro de 2011 às 7:27 pm

    Fala Misael…
    Estava “folheando” seu blog (que diga-se de passagem é muito bom!) aqui e achei esse post sobre o tão aclamado filme – A origem.

    Muito interessante sua análise, mas gostaria que lê-se essa análise que achei em um blog e que me pareceu muito instigante!

    http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2010/08/inception.html

    Gostaria antes de tudo de me desculpar pelos meses de atraso, mas é que agora que estou tendo tempo de me atualizar perante ao cinema.

    Enfim…
    Duas coisas me saltam a mente após ter assistido o filme e lido a análise a qual citei:

    Primeiro: A já citada em sua análise, complexidade do roteiro de Nolan, dando a nós abertura para discussões como essa, coisa que na minha breve história com o cinema vi pouquissimas vezes. E o que me deixa mais espantado é que além de tudo,o filme ser blockbuster produzido em Hollywood e com intenções, tambem, comerciais, o que dá mais crédito a produção.

    Segundo: A Pouco explorada, e confesso, analisada por mim só após a leitura da analise a qual lhe indiquei, capacidade do implante de idéias.
    É genial, pelo menos ao meu ponto de vista, observar que a todo momento estamos implantando e recebendo o implante de idéias, das mais diversas maneiras e com as mais diversas intenções.
    Acho fantastico a noção de realidade/sonho tanto abordada, mas creio que a idéia que dá origem ao título tambem merece uma análise mais detalhada. Fica a dica!

    Bom, pra terminar fica a indicação de um filme.
    Amnésia (Memento), um dos primeiros trabalhos de Nolan, exelente.
    Um filme onde ele desconstroi a ideia do roteiro linear e faz consegue um otimo resultado.

    Fico no aguardo de mais resenhas sobre cinama.
    Abraços!


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